O apogeu da teoria ondulatória
da luz coincidiu com a publicação, por James Clerk Maxwell, de uma série de
artigos (1855 a 1865) 1. Durante a construção de
sua teoria eletromagnética, Maxwell gradativamente foi se convencendo da
existência de um hipotético éter eletromagnético, a comportar as linhas de força
de Faraday. Este éter seria o responsável pela propagação de alguma coisa a que
Faraday (1846) denominara radiação como uma vibração
das linhas de força 1. No seu tratado sobre
eletricidade e magnetismo 2, publicado em 1873, Maxwell
refere-se a essa radiação, proposta por Faraday, como propagação de ondulações em um meio não condutor. Chega então a deduzir uma fórmula a relacionar propriedades
eletromagnéticas, definidas em sua teoria, com a velocidade V de
propagação desses distúrbios eletromagnéticos, chegando então à seguinte
expressão:
onde eo = permissividade no vácuo e mo = permeabilidade no vácuo (essas variáveis, foram adaptadas aos
símbolos e nomes utilizados na atualidade; no original eo
= K).
Como eo e mo são passíveis de determinação
laboratorial, Maxwell utilizou-se dos valores dessas propriedades
eletromagnéticas (eo e mo) conhecidas na época, chegando ao valor numérico de V.
Concluiu então que V era da mesma ordem de magnitude da já determinada
¾por vários autores, e por
métodos diversos e ópticos¾
velocidade da luz no ar ou no espaço planetário (vácuo).
Ao concluir sua teoria, Maxwell tinha plena convicção de que o éter
eletromagnético seria o mesmo éter luminífero das teorias óptico-ondulatórias
aceitas na época, mas é importante ressaltar que as ondulações
eletromagnéticas eram encaradas, na época de Faraday e Maxwell, como
hipóteses, ainda que descrevessem, com propriedade, distúrbios observados em um
campo eletromagnético; somente em 1888 (quinze anos após a publicação do tratado
de eletromagnetismo de Maxwell), essas "ondulações" foram produzidas e
detectadas por Heinrich Hertz 3.
A identidade
entre essas ondulações e a luz não
era necessária para a conclusão da teoria
eletromagnética de Maxwell. Muito pelo contrário, foi com essa hipótese,
assumida após a conclusão de estudos relativos ao eletromagnetismo, que Maxwell
desenvolveu outra teoria, a teoria eletromagnetica da
luz, exposta
nos quatro últimos capítulos de seu tratado sobre eletromagnetismo. A partir
dessa teoria foi que Maxwell passou em definitivo a optar pela aceitação da luz
como "onda eletromagnética". Conseqüentemente, a "natureza problemática da
vitória da teoria ondulatória", referida por Einstein e Infeld (vide
capítulo VI - item VI.1), não
implica necessariamente na inconsistência do modelo eletromagnético macroscópico
de Maxwell.
III.2 - Teorias de emissão
Se raciocinarmos segundo Newton, os campos eletromagnéticos
estacionários ¾campo elétrico e campo magnético¾ seriam, a exemplo do campo
gravitacional, produzidos graças à emissão, pelos corpos
materiais, de alguma coisa de natureza imaterial. 4 Classicamente
falando, essa alguma coisa, sendo imaterial, não deveria
transportar energia 5. O termo energia foi
utilizado, em sua plenitude física atual, posteriormente a Newton e somente a
partir do século XIX começou a se
pensar em energia contida nos campos estacionários. Não se deve confundir
energia do campo com energia potencial, pois esta foi pensada inicialmente como
uma energia contida em um objeto pelo fato dele se situar em um
campo.
Por outro lado, se
raciocinarmos segundo Maxwell, se a luz for absorvida
por um corpo, este corpo torna-se aquecido, o que mostra que ele recebeu energia
do exterior 6.
Se pretendermos
compatibilizar os dois raciocínios (de Newton e de Maxwell), a única solução
seria supormos que luz e onda eletromagnética seriam entidades emitidas pelos
corpos, mas a representarem coisas distintas, ainda que possuam uma
afinidade muito grande (a mesma fonte, os mesmos receptores, a mesma velocidade
e um inter-relacionamento muito intenso entre ambas ao se encontrarem no
espaço). Não obstante, Maxwell optou pela teoria mecânico-ondulatória tanto para
os campos quanto para a luz e, portanto, pela suposição da não-emissão 6; e a identidade
propalada por Maxwell decorre desta opção. Ao que parece, em nenhum trecho de
sua obra Maxwell chegou a assumir a possibilidade da existência de alguma coisa
de natureza imaterial emitida pelos corpos materiais (o espírito da matéria de
Newton - vide ítem I-2); ou seja, emissão
para Maxwell seria emissão de matéria, não havendo nada de imaterial em sua
teoria eletromagnética ¾nem
mesmo o éter¾ a se assemelhar
com o espírito da matéria newtoniano.
A teoria ondulatória clássica difere das teorias de emissão
¾seja material, seja
imaterial¾ principalmente por
assumir a existência de um meio etéreo a conter a energia que se propaga 6, seja cinética
(vibrações do meio), seja potencial (elasticidade). Nada obsta a que se pense na
existência de um éter imaterial, mas não foi essa a opção de Maxwell, pois ele
deixa claro, em toda a sua obra, acreditar num comprometimento de natureza
mecânica entre matéria e energia. Muitos na atualidade acreditam num éter
imaterial ou, até mesmo, num éter a satisfazer os caprichos de uma matemática
sofisticada. Einstein chega próximo a essa situação, deixando claro que essa
idéia de éter poderia ser deixada de lado num estudo inicial 7.
III.3 - A representação das ondas eletromagnéticas
No estudo das ondas eletromagnéticas é costume dar-se uma ênfase
toda especial às chamadas ondas planas, ou seja, aquelas que se propagam numa
direção fixa. Com esta simplificação, a configuração mais simples seria aquela a
representar um dos constituintes elementares da onda a percorrer um eixo
retilíneo. Na figura 10 está representado um tipo padrão (onda senoidal) desses
elementos propagando-se na direção x, com o campo elétrico E na direção y e o
campo magnético B na direção z. Os campos E e B são sempre perpendiculares à
direção de propagação e são perpendiculares entre si. Diz-se também que essa
onda é linearmente polarizada 8,
denominação esta a significar que o campo elétrico se restringe a ser paralelo a
uma determinada reta do plano xy (no caso representado na figura, a reta
considerada é paralela ao eixo y).

Figura 10: Onda eletromagnética plana, linearmente polarizada.
Figura 10: Onda eletromagnética plana, linearmente polarizada.
Uma figura
semelhante, e com animação java, pode ser observada no site do Departamento de
Física da UFSC [estando na internet, clique
aqui para visualizar a imagem].
No estudo da óptica ondulatória é costume utilizar-se desta imagem
(figura 10) para representar o componente mais simples da luz, aquele que virá,
sob certos aspectos, a identificar-se com o fóton das teorias atuais, como
veremos nos capítulos seguintes. Diz-se também que essa luz, linearmente
polarizada, seria aquela emitida por um átomo individual, e o campo
elétrico transversal da luz seria sempre dirigido num plano que contém a
linha ao longo da qual oscila a distribuição de carga e a direção de propagação
da luz 9.
Costuma-se
representar a onda eletromagnética da figura 10 através de sua imagem num plano
perpendicular à direção de propagação (eixo x) e com o valor máximo para o vetor
campo elétrico E, como mostrado na figura 11a. Pode-se ainda deixar de
representar o vetor campo magnético B, como mostrado na figura 11b. Esta
simplificação facilita o estudo de situações mais complexas, como veremos logo a
seguir.

Figura 11: a) Onda eletromagnética plana observada na direção de propagação.
b) A mesma onda representada de maneira simplificada,
apenas com o campo E.
Figura 11: a) Onda eletromagnética plana observada na direção de propagação.
b) A mesma onda representada de maneira simplificada,
apenas com o campo E.
Assume-se também
que, via de regra, a onda eletromagnética emitida por uma coleção de átomos é
não polarizada, porque não há relação entre a orientação da linha de oscilação
das cargas num átomo e a orientação desta linha num outro átomo. Ocorrem então
todas as polarizações possíveis e, portanto, não há polarização
9. Representaremos
essa onda não polarizada como mostrado na figura 12.

Figura 12: Representação esquemática da
onda eletromagnética não polarizada.
Figura 12: Representação esquemática da
onda eletromagnética não polarizada.
III.4
- Contraste onda-corpúsculo:
As figuras 10 e 11
devem ser comparadas, respectivamente, com as figuras 6 e 5 da representação corpuscular
compatível com as idéias de Newton e apresentadas no capítulo I, item 3, sob o
título os lados da luz). O campo E corresponde
aos lados em cima e embaixo (giro polar) do raio de luz corpuscular, e o campo B
corresponde aos lados direita e esquerda (giro equatorial). Nestas condições, a
figura 13 ilustra o contraste que seria esperado observar entre as
representações da teoria ondulatória eletromagnética atual e de uma possível
teoria corpuscular da luz nos moldes newtonianos.

Figura 13: Luz ondulatória versus luz corpuscular.
Figura 13: Luz ondulatória versus luz corpuscular.
Não é necessário que
um raio de luz complexo apresente todos os componentes em todas as direções ao
mesmo tempo. No caso eletromagnético ondulatório, isso significaria a anulação
do campo E (soma vetorial). Em outras palavras, os raios elementares que entram
na constituição de um raio de luz, via de regra não viajam concomitantemente,
sendo mais provável que aconteça o que está representado na figura 14, a seguir,
se bem que em visão de câmera excessivamente lenta. Como o comprimento de onda
da luz visível é da ordem de 10-6 metros e a velocidade da luz da
ordem de 300.000 km/s, se fosse possível fotografar o pisca-pisca observado na
figura 14 na freqüência real, por melhor que fosse o flash utilizado,
iríamos obter a figura 13 a sugerir uma estrutura cristalina, mesmo para um raio
de luz dentre os considerados como de intensidade bastante baixa para o olho
normal.
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Figura 14: Representação dinâmica de um raio de luz não polarizada atravessando
o plano da tela. Com essa imagem estamos pretendendo desfazer aquela estrutura
aparentemente cristalina do esquema do raio de luz da figura 14, apelando-se para
o artifício da câmera super lenta.
Com o browser "Off line", clique em "Atualizar"
Figura 14: Representação dinâmica de um raio de luz não polarizada atravessando
o plano da tela. Com essa imagem estamos pretendendo desfazer aquela estrutura
aparentemente cristalina do esquema do raio de luz da figura 14, apelando-se para
o artifício da câmera super lenta.
As figuras têm um valor
didático que não deve ser hipervalorizado, qualquer que seja a teoria utilizada
(corpuscular ou ondulatória). As flechas do campo elétrico não existem e a
medida do campo refere-se a um valor localizado no ponto central do esquema.
Assim também o raio de luz é uma entidade hipotética, a representar a trajetória
dos corpúsculos que estão viajando segundo uma linha (vide figura 6 do capítulo I) e, portanto, deveriam
ocupar também o ponto central do esquema. Conseqüentemente, a estrutura cristalina referida no parágrafo
anterior é um artefato de representação, nada mais do que isso. O que não
significa dizer que os corpúsculos de luz, na suposição de existirem, não
poderiam simular imagens cristalinas no espaço, se bem que pertencentes a raios
distintos.
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